NFL volta a olhar para o Japão após sucesso histórico na Austrália

Partida de rúgbi no Nissan Stadium em Yokohama. (Imagem: HKT 1989)
Partida de rúgbi no Nissan Stadium em Yokohama. (Imagem: HKT 1989)

A NFL deu mais um passo na expansão de seu calendário internacional. No dia 11 de setembro, o Melbourne Cricket Ground (MCG), na Austrália, recebeu 100.021 torcedores para o confronto entre Los Angeles Rams e San Francisco 49ers, vencido pelos 49ers por 27 a 7.

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O número entrou para a história da liga: foi a 7ª maior audiência de uma partida de temporada regular da NFL e a 2ª maior registrada em um jogo internacional.

O mais impressionante, porém, foi o horário.

A partida começou às 10h35 de uma sexta-feira, no horário local de Melbourne. O início foi ajustado para coincidir com a janela de transmissão do Thursday Night Football nos EUA, o que significou realizar o jogo durante uma manhã de dia útil na Austrália.

Mesmo assim, mais de 100 mil pessoas ocuparam as arquibancadas.

O resultado reforçou uma questão que vem ganhando espaço dentro da própria NFL: quando o Japão voltará a receber uma partida da temporada regular?

Japão aparece novamente no radar da NFL

A possibilidade não é apenas uma expectativa de torcedores.

Em agosto, Brett Gosper, executivo da NFL responsável pelas operações na Europa e na região Ásia-Pacífico, afirmou à Reuters que o Japão está entre os mercados que atualmente despertam o interesse da liga.

O país reúne alguns fatores considerados relevantes para a expansão internacional. O futebol americano possui uma estrutura esportiva consolidada no Japão, enquanto os esportes norte-americanos também contam com uma base significativa de público.

O principal obstáculo é o fuso horário em relação aos Estados Unidos.

A expansão internacional da NFL, entretanto, avançou rapidamente nos últimos anos. Em 2026, a liga programou 9 partidas internacionais em 7 cidades e 4 continentes, o maior número de jogos fora dos EUA em uma única temporada.

A partir de 2027, a NFL está autorizada a realizar até 10 partidas internacionais por temporada. O comissário Roger Goodell também já mencionou, como possibilidade futura, chegar a 16 jogos internacionais por ano.

Peter O’Reilly, vice-presidente da NFL, também citou o Japão entre os mercados asiáticos avaliados pela liga, embora tenha indicado que uma partida japonesa não seria esperada já em 2027.

Outro movimento importante ocorreu em 2024. O Los Angeles Rams tornou-se a primeira franquia a obter os direitos de marketing no Japão por meio do Global Markets Program da NFL.

A mesma equipe que participou do histórico jogo de Melbourne, portanto, já possui uma estratégia comercial estabelecida no mercado japonês.

Japão já foi a porta de entrada da NFL no exterior

A relação entre NFL e Japão, contudo, não começou agora.

Na realidade, o Japão ocupa uma posição importante na própria história da expansão internacional da liga.

Em 16 de agosto de 1976, o Tokyo’s Korakuen Stadium recebeu St. Louis Cardinals e San Diego Chargers. Aproximadamente 38 mil pessoas acompanharam aquela partida, que marcou a primeira vez que a NFL realizou um jogo fora da América do Norte.

Treze anos depois, em 1989, Los Angeles Rams e San Francisco 49ers se enfrentaram no Tokyo Dome pelo American Bowl.

Ao todo, a NFL realizou 14 partidas no Japão.

A última aconteceu em 2005, também no Tokyo Dome, quando Indianapolis Colts, liderado pelo quarterback Peyton Manning, enfrentou o Atlanta Falcons.

Desde então, a liga não voltou a realizar um jogo no país.

A diferença histórica é significativa. Londres, atualmente um dos principais centros dos jogos internacionais da NFL, recebeu sua primeira partida apenas em 1983, 7 anos depois do Japão.

Enquanto a liga posteriormente ampliou sua presença para Reino Unido, Alemanha, Espanha, Brasil, México e Austrália, o Japão ficou fora do calendário de partidas oficiais desde 2005.

Por isso, a volta do país ao radar da NFL teria um significado diferente de uma simples nova expansão de mercado.

Seria o retorno a um dos primeiros territórios utilizados pela liga em sua estratégia internacional, agora com uma partida de temporada regular, e não apenas um jogo de pré-temporada ou American Bowl.

Japão ou China: qual será a porta de entrada da NFL na Ásia?

A possibilidade de uma partida no Japão também levanta outra questão: qual país receberá o primeiro jogo de temporada regular da NFL na Ásia?

Em termos de população e potencial de mercado, a China apresenta uma dimensão maior.

A NFL já tentou avançar no país. Em 2007, estava previsto um confronto entre Seattle Seahawks e New England Patriots em Pequim, pelo chamado China Bowl. O jogo acabou sendo adiado e posteriormente não aconteceu.

A liga continuou, entretanto, buscando presença comercial na China. Atualmente, a NFL mantém um escritório internacional em Xangai, enquanto os Rams também possuem direitos de marketing no país por meio do Global Markets Program.

O Japão apresenta, por outro lado, uma característica diferente: a NFL não precisaria começar do zero.

O país possui quase cinco décadas de relação com a liga e uma estrutura própria de futebol americano envolvendo categorias universitárias, escolares e equipes corporativas.

Além disso, Japão e China enfrentariam um problema semelhante de horário. Caso a NFL utilizasse uma janela equivalente à partida de Melbourne, um jogo começando às 20h35 de quinta-feira no horário da Costa Leste dos EUA teria início por volta das 9h35 da sexta-feira no Japão.

O jogo australiano mostrou que a liga está disposta a testar esse tipo de horário.

A questão agora é saber se o mesmo modelo poderia funcionar em território japonês.

Uma operação de dezenas de toneladas

O sucesso de Melbourne também revelou o tamanho da operação necessária para levar uma partida da NFL para outro continente.

Segundo informações citadas pela reportagem, Rams e 49ers viajaram para a Austrália com delegações de aproximadamente 225 pessoas cada e utilizaram aviões Airbus A380 fretados pela Qantas.

As duas equipes transportaram aproximadamente 32 toneladas de equipamentos.

A NFL enviou outras 27 toneladas de materiais por via marítima, levando o total planejado para cerca de 59 toneladas de carga.

Além disso, até aproximadamente 200 funcionários da própria liga estiveram envolvidos presencialmente na operação em Melbourne.

O número demonstra que uma partida internacional da NFL está muito distante de simplesmente colocar 53 jogadores, staffs e comissão técnica em um avião e disputar uma partida.

São necessários equipamentos, estrutura médica, preparação física, material de treinamento, tecnologia, transmissão, segurança, logística e espaços adequados para dezenas de profissionais de cada equipe.

Até o MCG precisou ser adaptado

Outro ponto destacado pela operação australiana foi a necessidade de modificar a estrutura interna do estádio.

O Melbourne Cricket Ground tem capacidade para mais de 100 mil pessoas e é um dos maiores e mais tradicionais estádios esportivos do mundo.

Mesmo assim, o local precisou passar por adaptações para receber a NFL.

Os vestiários foram ampliados e receberam estruturas específicas para as equipes. Também foram preparados espaços para treinadores, transmissão, equipamentos e operação das franquias.

Segundo John Barker, responsável pela operação de eventos globais da NFL, a adaptação de estádios internacionais pode envolver alterações em paredes e sistemas hidráulicos, além da instalação de chuveiros, banheiros e estruturas para recuperação dos atletas, incluindo banheiras de água fria e quente.

No caso de Melbourne, até parte do estacionamento subterrâneo foi utilizada para armazenamento de equipamentos e escritórios temporários.

A experiência deixa uma lição importante para qualquer cidade interessada em receber uma partida da NFL: capacidade de público não é suficiente.

O estádio precisa ser capaz de funcionar como uma estrutura temporária preparada para as exigências específicas da liga.

E onde a NFL poderia jogar no Japão?

Caso uma partida seja confirmada no Japão, dois estádios aparecem naturalmente na discussão: Japan National Stadium, em Tóquio, e Nissan Stadium, em Yokohama.

O National Stadium possui capacidade para aproximadamente 67.750 espectadores e conta com quatro vestiários de equipes de 80 m², duas áreas de aquecimento de 175 m² e um espaço interno de treinamento de aproximadamente 1.900 m².

O estádio, inaugurado para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio, também possui o peso simbólico de estar no centro da capital japonesa.

O Nissan Stadium, por sua vez, tem capacidade para 72.327 pessoas e já possui o futebol americano entre as modalidades contempladas em sua estrutura.

O estádio também conta com 10 cabines de transmissão e espaço para até 8 veículos de transmissão de grande porte.

Sua localização em Shin-Yokohama oferece ainda acesso relativamente fácil às principais vias rodoviárias, algo relevante para o transporte de dezenas de toneladas de equipamentos.

Nissan Stadium e National Stadium têm características diferentes

Além do estádio propriamente dito, a estrutura ao redor também pode ser importante.

O Nissan Stadium está inserido no complexo esportivo do Shin-Yokohama Park. Nas proximidades fica o Shinyoko Football Park, que possui um campo de grama artificial de 105 por 68 metros.

Há ainda outras áreas esportivas que poderiam, mediante adequações, ser utilizadas para atividades relacionadas ao evento.

Isso não significa que essas estruturas estejam automaticamente prontas para receber uma equipe da NFL. Seriam necessárias adaptações relacionadas a segurança, comunicação, medicina esportiva, qualidade do campo e outros requisitos técnicos.

Mas o espaço disponível ao redor do estádio pode facilitar a criação de uma estrutura temporária para treinamento, armazenamento e operações das equipes.

O National Stadium teria, por outro lado, uma vantagem diferente: visibilidade internacional e localização em Tóquio.

Uma partida poderia ser apresentada mundialmente como um grande evento esportivo na capital japonesa.

Para a NFL, portanto, a escolha envolveria não apenas questões de infraestrutura, mas também a estratégia de apresentação do mercado japonês.

O maior desafio continua sendo o fuso horário

Mesmo que o estádio seja escolhido, a NFL ainda teria de lidar com seu principal problema no Japão: o horário.

A partida de Melbourne começou às 10h35 da sexta-feira local para atender à janela de transmissão do Thursday Night Football nos Estados Unidos.

Aplicado ao Japão, o mesmo modelo levaria o jogo para aproximadamente 9h35 da sexta-feira.

Isso significa tentar colocar dezenas de milhares de torcedores em um estádio durante uma manhã de dia útil.

Por outro lado, realizar a partida à noite no Japão faria com que o jogo fosse transmitido nos Estados Unidos durante a madrugada ou início da manhã.

É justamente esse conflito que explica a cautela de dirigentes da NFL ao falar sobre a expansão na Ásia.

A experiência de Melbourne, entretanto, forneceu um dado importante: um horário pouco convencional não necessariamente impede uma grande presença de público.

Mais de 100 mil pessoas foram ao MCG em uma manhã de sexta-feira.

Ainda não há como saber se o Japão produziria resultado semelhante.

Um jogo no Japão deixou de ser apenas uma possibilidade distante

Não há indicação de que o Japão receberá uma partida da NFL já em 2027.

Mas a discussão ganhou novos elementos.

A NFL pretende ampliar seu calendário internacional, dirigentes da liga passaram a citar explicitamente o Japão entre os mercados avaliados e os Rams já possuem direitos comerciais no país.

Ao mesmo tempo, Melbourne demonstrou que a NFL consegue organizar uma partida de temporada regular no outro lado do planeta, mesmo enfrentando grandes desafios de logística e horário.

O precedente australiano também mostra o tamanho da operação necessária: cerca de 2 anos de preparação, centenas de pessoas envolvidas e dezenas de toneladas de equipamentos transportados entre continentes.

Assim, uma eventual partida no Japão dependeria de muito mais do que encontrar um estádio com capacidade para 60 mil ou 70 mil pessoas.

Seria necessário avaliar infraestrutura, logística, treinamento, vestiários, transmissão, segurança, transporte, custos e, principalmente, o modelo de horário que permitiria atender simultaneamente ao público japonês e à audiência da NFL nos Estados Unidos.

Quase 50 anos atrás, o Japão foi o primeiro país fora da América do Norte a receber uma partida da NFL.

Agora, depois de duas décadas desde o último jogo no país, a liga volta a considerar a possibilidade de retornar.

A diferença é que, desta vez, o objetivo seria colocar o Japão novamente no calendário da temporada regular da NFL.

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Tiago Munden
Iniciou no esporte como jogador no Amazon Black Hawks (Manaus) em 2009. Passou pelo GET Eagles (atual Galo) e se aposentou dos campos em 2016, passando a atuar na diretoria da equipe. Em 2017, tornou-se membro da Touchdown Mineiro e da FABr Network, cobrindo principalmente o futebol americano em Minas Gerais. Ingressou no América Locomotiva em 2018 e, no mesmo ano, passou a integrar a FEMFA. Em 2021, foi vice-presidente da CBFA na chapa com Cris Kajiwara. Desde 2016, atua também como narrador, comentarista, colunista, fotógrafo e cinegrafista.

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