
O crescimento acelerado do flag football feminino nas escolas dos Estados Unidos começa a provocar uma discussão inesperada: à medida que o esporte conquista novas atletas, ele estaria também tirando espaço de modalidades femininas já tradicionais?
A questão ganhou força em Long Island, no estado de Nova York, onde uma reportagem publicada pelo jornal estudantil da Jericho High School chamou atenção para os efeitos da expansão do flag football dentro das escolas. O debate envolve principalmente esportes como softball e lacrosse, que tradicionalmente ocupam boa parte da programação esportiva feminina na primavera.
A discussão foi ampliada por uma análise do Newsday, publicada em agosto, que levantou dados de participação esportiva nas escolas de Long Island. Segundo o levantamento, o flag football feminino passou de 1.010 atletas em 2023, quando começou como esporte oficial, para 1.716 em 2026, crescimento de aproximadamente 70%. O número de equipes varsity (equipe principal, geralmente formada pelos atletas mais competitivos/experientes, que competem torneios oficiais de elite da modalidade escolar) também aumentou de 38 para 66.
No mesmo período, porém, outros esportes registraram queda na participação. O lacrosse feminino passou de 4.030 para 3.288 atletas, redução de 18,4%. No softball, a queda foi ainda maior: de 2.894 para 2.189 jogadoras, ou 24,4%. No atletismo feminino, a redução foi de 16,5%.
Atletas estão mudando de esporte
Um dos exemplos apresentados pelo Newsday é o de Taylor Mileti, de Hauppauge High School. Ela começou a jogar lacrosse aos 5 anos e chegou a integrar o time JV (Junior Varsity = equipe de desenvolvimento, normalmente abaixo da varsity, formada por atletas mais jovens ou menos experientes) no oitavo ano. Em 2023, porém, quando a escola criou uma equipe de flag football, Mileti decidiu abandonar o lacrosse e passou a jogar flag.
Outro caso é o de Layla Palazzo, de Glen Cove, que jogava softball até o oitavo ano antes de migrar para o flag football. Ela contou que preferia a dinâmica do novo esporte e não gostava da quantidade de equipamentos necessários para jogar softball.
Os relatos mostram que, em alguns casos, o crescimento do flag não significa apenas a entrada de novas atletas no esporte. Também pode representar a transferência de jogadoras que já praticavam outras modalidades.
Um caso ainda mais significativo ocorreu em Wantagh. A escola conquistou o título de Long Island no softball feminino em 2026, mas não conseguiu formar uma equipe JV depois de adicionar o programa de flag football. A técnica Christine Moran afirmou ao Newsday que o novo esporte teve impacto na formação do elenco e que o time acabou ficando com 21 jogadoras.
Mas o flag está realmente “roubando” atletas?
Os números de Long Island chamam atenção, mas não permitem concluir que o crescimento do flag football seja diretamente responsável pela queda de participação nos outros esportes.
Isso porque o cenário nacional é diferente.
Segundo dados da National Federation of State High School Associations (NFHS) citados pelo Newsday, o número de meninas jogando flag football nos EUA aumentou de 20.875 em 2023 para 68.847 em 2025, crescimento de quase 230%.
No mesmo período, entretanto, a participação nacional no softball caiu apenas 1,9%, enquanto o lacrosse feminino cresceu e o atletismo feminino também registrou aumento.
A Axios também destacou essa diferença ao analisar o crescimento nacional do esporte. Mais de 102 mil meninas participaram do flag football no high school americano na temporada 2025-26, aumento de 551% em quatro anos. Ao mesmo tempo, a publicação ressalta que ainda não está claro se o esporte está principalmente criando novas atletas ou atraindo meninas que antes praticavam outras modalidades.
Ou seja: Long Island apresenta um fenômeno particularmente forte, mas não necessariamente representa o que está acontecendo em todo o país.
Por que o flag está atraindo tantas meninas?
Parte da explicação está na própria acessibilidade do esporte. O flag football exige relativamente pouco equipamento. Segundo o levantamento do Newsday, uma jogadora precisa basicamente de uma bola, cinturão de flags e chuteiras. Já o lacrosse pode exigir sticks de alto nível que custam centenas de dólares, além de óculos de proteção. No softball, tacos de alto nível e luvas também podem representar investimentos significativos.
O crescimento também é impulsionado pela popularidade do futebol americano nos EUA. Durante décadas, meninas tiveram poucas oportunidades de praticar futebol americano organizado. O flag football abriu uma porta para que elas participassem de uma modalidade que já fazia parte da cultura esportiva de muitas famílias americanas.
Além disso, o esporte está deixando rapidamente de ser apenas uma atividade recreativa.
Em Nova York, o flag football feminino já possui campeonato estadual. Em 2026, 66 equipes de Long Island participaram da temporada, enquanto a modalidade também recebeu apoio significativo da NFL e de equipes como o New York Jets e Giants.
O próximo passo pode ser ainda maior
O crescimento não está limitado ao ensino médio. O flag football feminino foi incluído no programa NCAA Emerging Sports for Women em janeiro de 2026 e recebeu posteriormente recomendação para se tornar um esporte oficial de campeonato da NCAA. Caso a proposta seja aprovada pelas três divisões da entidade, o primeiro campeonato nacional universitário poderá ocorrer na primavera de 2028.
Leia também: Flag football feminino rumo à NCAA
A modalidade também fará sua estreia olímpica nos Jogos de Los Angeles 2028, tanto no masculino quanto no feminino.
Isso significa que uma adolescente que começa hoje a jogar flag football pode enxergar um caminho que simplesmente não existia poucos anos atrás: escola, universidade e, em breve, Olimpíadas.
Uma disputa por atletas ou a criação de novas oportunidades?
É justamente aí que está a parte mais interessante da história.
O caso de Long Island mostra que o crescimento de uma modalidade pode alterar o equilíbrio esportivo dentro de uma escola. Quando uma nova opção aparece, algumas atletas podem abandonar esportes tradicionais para experimentar algo diferente.
Mas também existe outro lado. O flag football pode estar levando para o esporte meninas que nunca haviam encontrado uma modalidade na qual quisessem competir.
Por isso, a pergunta talvez não seja apenas se o flag football está “roubando” atletas do softball ou do lacrosse. A questão maior é quanto do crescimento do flag representa uma migração de atletas e quanto representa meninas que finalmente encontraram seu esporte.
Por enquanto, os dados de Long Island mostram que as duas coisas podem estar acontecendo simultaneamente.


