Gerson e sua incrível Fábrica de Linebackers: “Para formar líderes”

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Gerson "Polamalu" Santos foi um dos destaques da defesa da Seleção Brasileira no Mundial de Ohio, em 2015 Foto: Victor Francisco / Salão Oval

A pandemia forçou o mundo e também o futebol americano a parar suas atividades presenciais. Mas, por outro lado, o compartilhamento de conhecimento continuou e muitas iniciativas focadas especificamente para posições da modalidade surgiram. A uma de grande destaque foi o Fábrica de Linebackers, do craque da posição, Gerson “Polamalu” Santos.

Um dos grandes destaques do FABR, com presença marcante no mundial de Ohio e figura histórica do São José Istepôs, Gerson partiu para a Alemanha em 2016, para aprimorar sua vida acadêmica. No entanto, o futebol americano não deixou de fazer parte de sua vida e, além da iniciativa que reúne os linebackers do Brasil para aprimorarem sua forma técnica e tática mesmo à distância, Polamalu também faz parte atualmente do staff técnico do time alemão Cologne Centurions, da European League Football.

Neste final de semana, Gerson é um dos palestrantes do VI Congresso Brasileiro de Futebol Americano. Conheça mais sobre o craque na entrevista a seguir:

Salão Oval: Como você se interessou por futebol americano?

Gerson “Polamalu” Santos: Na verdade eu estava na procura por um esporte, e o futebol americano apareceu por acaso. Eu tinha recém-chegado em Floripa/Santa Catarina para estudar Engenharia Mecânica, e devido ao alto nível de exigência da Federal nos estudos, eu estava quase pirando e desenvolvendo uma depressão. Não tinha amigos e nem família por lá, não praticava esporte e, para piorar, ainda tinha dificuldades financeiras. A situação parecia uma panela de pressão prestes a explodir.

Todavia, eu consegui apoio psicológico da Universidade, e com alguns encontros percebi que eu deveria mesmo é buscar um balanço na vida para me manter saudável fisicamente e mentalmente, unindo o útil ao agradável. Que deveria não somente sobreviver ao processo, mas curti-lo e vivenciar cada momento como único.

E dessa forma, eu entendi que 16h de estudos/trabalho por dia sem aproveitar o momento presente, iria me levar para baixo e não adiante. Mas a vida se encarregou de colocar o FA no meu caminho e tudo mudou para melhor.

Um esporte que iniciei praticando para servir de válvula de escape dos problemas, me mostrou que se requer muito mais seriedade e que existem disponíveis muitas oportunidades na evolução pessoal e também profissional de quem realmente se dedicar.

Salão Oval: Como foi parar no Istepôs? O que o time significou para você?

Gerson “Polamalu” Santos: Em 2009, um ex-atleta do Istepôs que também era universitário na UFSC me viu no Restaurante Universitário (RU) e me convidou para uma seletiva no time. Eu, mesmo não sabendo nada do esporte, resolvi arriscar. Aliás, eu já estava à procura de praticar algo, então uma modalidade coletiva me ajudaria a conhecer mais pessoas e ainda realizar atividades físicas regularmente.

Mas quando eu pisei naquele gramado para realizar a seletiva e dei meu primeiro tackle (0% de técnica, mas com 100% de intensidade e vi a reação de todos) abriu-se para mim uma luz no fim do túnel. Um local onde não existia excesso de intensidade e energia, um local onde fui muito bem recebido e em curtíssimo espaço de tempo virou minha segunda casa.

O Istepôs teve sua base e sua cultura moldadas por pessoas íntegras e comprometidas com a modalidade. Foi por essa e outras que nunca pensei em sair de lá (mesmo com dezenas de convites entre 2012 e 2016) e me orgulho muito disso. O Istepôs fez e sempre fará parte de mim e sempre estará comigo. Levo milhares de boas lembranças e histórias que ficarão eternizadas não somente no time, mas no FABR. Ter ajudado meu time a ser bicampeão estadual e ter levado o nome dele para o Brasil inteiro, me deixa extremamente grato e orgulhoso. Sou lisonjeado pelas amizades verdadeiras que duram mesmo eu vivendo a 10 mil km de distância do Brasil, e outras que partiram muito cedo daqui, mas que certamente estão nos protegendo lá de cima (Grande e eterno Paulo Torquato #28 – nota da edição: grande destaque da equipe e também da Seleção, falecido em acidente de moto em dezembro de 2019).

Salão Oval: Alemanha – como foi a mudança na sua vida? Qual foi sua experiência jogando aí e o que é diferente do Brasil?

Gerson “Polamalu” Santos: Em 2016, eu vim para a Alemanha e logo quando cheguei, já recebi algumas propostas de times de todo país, inclusive da Bélgica e Holanda. Eu optei por jogar num time local da minha cidade, pois meu foco sempre foi minha carreira profissional na Engenharia Mecânica. Assim, joguei como Linebacker no Vampires Aachen desde final de 2016 a 2019, onde pude inicialmente ajudar como Coach do time infantil de FA, e passei a ser coach de Linebackers da equipe principal.

Na minha visão, o Futebol Americano aqui tem mais conhecimento de causa e maturidade. A Europa já trouxe a NFL para cá, não teve tanto sucesso como esperado, mas aprendeu com os erros para se reerguer. Assim, ligas como a German Football League (GFL) e a European Football League (EFL) entregam ao público uma maior e melhor estrutura, com média de público interessante o suficiente para que mais empresas patrocinem a modalidade por aqui.

Salão Oval: Como foi a ideia do projeto “Fábrica de Linebackers”? Qual o objetivo?

Gerson “Polamalu” Santos: Cara, a forma que isso surgiu foi incrível. Desde que cheguei na Alemanha, no final de 2016, resolvi desativar minhas redes sociais e focar na nova experiência aqui. Aprender um terceiro idioma e viver uma nova cultura toma tempo e não são tarefas fáceis, dessa forma, eu resolvi focar nisso.

Ali no meio de 2020, eu resolvi voltar para as redes sociais, conhecer novamente o FABR e ajudar os atletas que estavam se desenvolvendo no cenário nacional. Comecei a abrir caixinha de perguntas referente a posição de LB e quando percebi já estava investindo horas nisso por dia. Vários atletas começaram a me questionar sobre cursos específicos e mentorias na posição de LB. Eu nem sonhava com essa opção, mas depois de ouvir e entender realmente a necessidade deles, criei a Fábrica de Linebackers.

O objetivo vai além de formar Linebackers Playmakers, ou seja, atletas que se destacam. É formar líderes dentro e fora de campo, atletas que se colocam à disposição para servir e evoluir seus respectivos times e a nossa modalidade no Brasil.

Um atleta ter como objetivo realizar vários tackles for loss ou big hits é justo, mas o que buscamos é a criação de legados na modalidade, isso sim nos inspira. Linebackers são líderes, e ao aceitar e assumir essa oportunidade, nos comprometemos em sempre buscar a evolução contínua, não focada no bem próprio exclusivamente, de forma que as atitudes sejam reconhecidas e levadas como exemplo aos outros atletas, criando coletivamente essa mentalidade de TIME maior do que EU.

Eu digo com todas as palavras e sem modéstia, a Fábrica de Linebackers é um dos projetos mais sérios e bem estruturados que o FABR já viu. Ela ainda é um embrião, mas já abrange a multidisciplinaridade que o esporte e o Futebol Americano requerem. Já possuímos nosso registro de empresa aqui na Alemanha (CNPJ alemão), assim, temos carta verde para expandirmos cada vez mais nossas ideias e nosso compromisso com o FA brasileiro.

Salão Oval: Qual o futuro que você vislumbra para quem quer começar a jogar futebol americano agora no Brasil?

Gerson “Polamalu” Santos: Eu enxergo um futuro extremamente promissor e crescente no Futebol Americano nacional. Penso que cada vez mais os novos praticantes enxergam as oportunidades que o FA oferece e se forçam a traçar objetivos maiores que os já conquistados por nós (da geração passada).

Meu alerta é na metodologia de ensino utilizada na nossa modalidade. Resumidamente, os novos atletas são ensinados por atletas mais experientes do respectivo time, e não têm à disposição coachs por posições ou alguém que eles possam tirar dúvidas básicas com frequência. Isso faz com que não exista essencialmente uma metodologia, pois não são todos que têm paciência, conhecimento e/ou tato para transmitir conhecimento e informação aos atletas. Pra resumir, o atleta novo é colocado em situação de estresse muito cedo, pois tem que aprender centenas de regras, terminologias e técnicas que nunca teve contato anteriormente. A chance da desistência, risco de lesão e de criar-se lacunas no seu aprendizado é gigante.

E por sua vez, quem passa o treino nem sempre está apto a isso ou não busca se reciclar, ou ainda não consegue treinar e auxiliar o time como técnico, o que leva a uma comunicação e entendimento ineficiente de Futebol Americano, a sobrecarga dos envolvidos e a estagnação da performance da equipe.

Ou seja, sem um projeto maior e bem estruturado no ensinamento dos jogadores novatos e na reciclagem dos experientes, as equipes tendem a se manter e performar num nível sempre similar, o que atualmente não nos coloca em destaque no cenário da modalidade (como outros países: Alemanha, Canadá e México).

A solução está na abordagem da metodologia de ensino, que deve frisar os fundamentos utilizando-se um plano de ação bem organizado, eliminando pontos cegos no aprendizado e na evolução dos atletas e coaches.

Se do modo atual, já conseguimos exportar talentos, imagine quando todos pensarem num plano de ação e reciclagem na metodologia de aprendizagem? Tenho certeza que logo mais novos times e projetos surgirão para somar e fazer o FA evoluir de verdade. Nós, da Fábrica de Linebackers, estamos comprometidos no processo e atravessaremos fronteiras evidenciando nossos talentos brasileiros.

> Visite e conheça a Fábrica de Linebackers

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