Terremoto e Futebol Americano: quando o esporte vai além do jogo

O autor deste texto é o coach Brian Guzman, atualmente running backs coach da Aztecas Udlap, em Puebla, cidade próxima ao epicentro do terremoto desta semana. Campeão brasileiro pelo João Pessoa Espectros em 2015, em 2016 foi fazer história no México e, desde então, já fez parte das comissões técnicas campeãs universitárias que venceram um nacional (Aztecas Udlap) e um mundial (México).

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Brian Guzman coleciona troféus pelo Brasil e México Foto: Aztecas Udlap

Era pouco mais de 1h15 da tarde do dia 19 de setembro de 2017, o céu estava limpo e a temperatura perfeita, tudo parecia indicar que seria um típico dia de outono em San Andrés Cholula, desses ideais para um treino de futebol americano colegial. Estávamos iniciando nossa preparação para enfrentar o ITESM campus México nesse próximo sábado dia 23, um jogo aguardado, já que seria nosso primeiro fora de casa. A pré-prática transcorreu normalmente, iniciamos o alongamento dinâmico como sempre fazemos todos os dias… até que uma sirene soou e tudo mudou completamente.

É difícil descrever o momento em que seu cérebro realmente entende o que está acontecendo. O som estridente do alarme sísmico, o barulho surreal da terra se movendo, o desequilíbrio que parece estar dentro da sua cabeça e o ruído dos pedaços de edifício rachando e entrando em colapso. A correria e o desespero que tomam conta das pessoas é algo tão instintivo e visceral que fica fácil se dar conta do quão insignificante somos diante da natureza e da própria vida. As árvores sacudiram, as sirenes se multiplicaram, os segundos se arrastaram e de repente, tudo parou. Víamos as pessoas sendo evacuadas dos edifícios em torno do campo e esperávamos, reunidos, alguma indicação do que fazer.

Nesses momentos, você percebe a bênção que é poder ser um Coach, saber que existem jogadores ali sob sua responsabilidade, estudantes assistentes contando com você, pais e mães que te confiam seus filhos porque acreditam quando você diz que ele será tratado como seu próprio filho. Tudo isso impede que o pânico natural dessas situações tome conta do seu julgamento e das suas ações, te permite pensar com clareza, estabelecer suas prioridades, contar seus jogadores e assegurar que estão todos reunidos, garantir que seus estudantes assistentes responsáveis por filmar o treino estão no chão firme e não pendurados em alguma torre instável. Te permite pensar no outro, antes de pensar em si mesmo, e isso faz toda a diferença.

Então o que o Terremoto de Puebla tem a ver com Futebol Americano? Tudo.

Há exatos 32 anos atrás, outro terremoto arrasou a região central do México. Foi o famoso sismo de 1985 que deixou cerca de 10 mil mortos na Cidade do México e arredores. Dentre as lembranças desse episódio horroroso, os que estiveram lá contam que a tragédia expôs o que havia de melhor no povo mexicano: uma união, humanidade e solidariedade impressionante que serviram de argamassa para reconstruir o que foi derrubado. Esse mesmo sentimento surgiu, anos depois, quando a tragédia voltou a bater, e eu nunca estive tão impressionado.

Nossas atividades esportivas foram suspensas e as aulas canceladas. Ainda assim, nos reunimos como equipe para saber o que podíamos fazer. Nossa bela Cholula estava aos pedaços, as cúpulas da Igreja da Virgem dos Remédios sobre a pirâmide, cartão postal da nossa cidade, desmoronaram, deixando uma cicatriz enorme no horizonte. As famílias estavam preocupadas pedindo que seus filhos voltassem aos seus estados de origem e a cada hora o número de vítimas subia na capital e no nosso estado. Calamidade pública, mas os Aztecas não foram treinados para assistir, nem no campo, nem na vida.

Sou privilegiado por testemunhar a fibra desses jovens que entendem que o sentido da vida é agir, ser protagonista, atacar os problemas e superá-los. Vi carro atrás de carro deixar os dormitórios e lotarem os supermercados para comprar mantimentos, água, coisas básicas que estavam faltando em muitos povoados próximos. Vi nossos jogadores ocuparem todas as vagas de voluntário no centro de arrecadações e passar o dia empacotando, catalogando, carregando e descarregando caminhões de doações que chegavam de todas as partes. Vi Aztecas enfrentarem as estradas comprometidas para chegar à San Lucas Tulcingo, Tochimilco, Metepec, Atlixco e todos os povoados que ficaram praticamente isolados depois do terremoto. Vi nossos Linebackers veteranos, líderes da defesa e do time levantarem às cinco da manhã e se atreverem a ir à Izúcar de Matamoros, o próprio epicentro do sismo, porque lá precisavam de braços fortes e corações dispostos. 24 horas depois de uma das maiores tragédias da história do México, ninguém pensava em Futebol Americano, mas esses jovens atacaram o dia como foram ensinados a atacar cada jogada, com atitude, compromisso e um motor incansável.

Menos de 48 horas depois, ainda vivemos a expectativa de uma réplica do terremoto, como a que aconteceu em 1985. Nosso jogo contra o ITESM México permanece de pé, e faremos de tudo para direcionar todos os recursos provenientes do duelo às vítimas da tragédia. A ideia de treinar nos próximos dois dias e viajar para a Cidade do México para jogar enquanto ainda existem pessoas sendo resgatadas sob os escombros é surreal*, mas é uma realidade. Nosso Head Coach modificou a rotina para que coaches e jogadores pudessem seguir engajados nos esforços de voluntariado, afinal, a partida em si, agora é a menor das nossas preocupações. Não estamos passando horas vendo vídeo, nos reunindo na frente do quadro ou repetindo jogadas exaustivamente no campo. Agora é muito mais que isso. O resultado no placar ainda é um mistério, mas se os últimos dias me ensinaram algo, é que no jogo ou na vida, os Aztecas, Cholula, e o povo mexicano estão prontos para atacar o que vier.

“Que se mueva el suelo. Somos águilas!”

*a rodada foi cancelada e os jogadores continuam ajudando as comunidades

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